PrEP: a prevenção contra o HIV que funciona, mas muita gente não usa, nem conhece
Neste Dezembro Vermelho, infectologista desmonta mitos, explica quem deve usar e reforça a urgência de falar sobre prevenção sem tabus
Por Redação SBR
Publicado em 15/12/2025 17:42
Bauru e região
Reprodução: Redes sociais

No mês da campanha Dezembro Vermelho, dedicada à conscientização e à luta contra o HIV/aids no Brasil, um paradoxo chama a atenção: mesmo com a queda nas mortes relacionadas ao vírus, a transmissão voltou a crescer. É o que indicam dados federais divulgados no ano passado, que registraram um aumento de 4,5% no número de diagnósticos. 

O cenário acendeu um alerta sobre a falsa sensação de imunidade que parte da população ainda carrega e reforçou a urgência de discutir ferramentas modernas de prevenção, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP). 

 

Altamente eficaz e disponível no SUS sob indicação médica, o método ainda enfrenta dúvidas e estigmas que impedem que mais pessoas tenham acesso a uma proteção capaz de reduzir em mais de 90% o risco de infecção. É o que aponta o infectologista Tomás Russo, da Hapvida Bauru. 

 

“A PrEP não é restrita, como se pensava no início. Hoje, qualquer pessoa com vida sexual ativa, que tenha tido uma relação desprotegida nos últimos 6 meses pode considerar o uso. Especialmente se houve mais de uma relação e com diferentes parceiros, ou caso tenha tratado alguma outra IST recentemente”, explica o especialista.

 

A PrEP funciona como uma espécie de “anteparo” ao vírus, criando uma barreira química antes mesmo da exposição. “O medicamento bloqueia a replicação viral caso o HIV entre no organismo. É como construir uma proteção invisível antes de a ameaça existir”, detalha Russo. 

 

Ele explica ainda que, com o avanço das pesquisas e das diretrizes internacionais, a indicação da PrEP mudou ao longo dos anos. Se antes era vista como um recurso direcionado a grupos específicos, hoje a recomendação é baseada em comportamentos, escolhas e vulnerabilidades individuais e não em rótulos; o que vai diferenciar é a modalidade mais adequada: a PrEP diária e a PrEP sob demanda. 

 

“Qualquer adulto com vida sexual ativa pode ser avaliado para usar a PrEP. A indicação é personalizada”, reforça o infectologista, destacando que o método só não é indicado em casos específicos, como em pessoas com doenças renais graves. 

  

Antes de iniciar o uso, então, é necessário passar por uma avaliação com profissional de saúde que esteja apto a prescrever o medicamento. Um acompanhamento periódico também é realizado durante o tratamento.

 

Mitos que afastam

 

Russo lista alguns dos equívocos mais comuns, como a ideia de que a PrEP é “para quem se expõe demais”. “Está errado. A PrEP protege e não define comportamento. É prevenção, não julgamento.”  

 

Outro mito recorrente é o de que tomar PrEP dispensa o uso de camisinha. “Ela previne HIV, mas não outras infecções sexualmente transmissíveis. A PrEP complementa a proteção, não substitui o preservativo”, afirma o médico.  

 

Há ainda quem acredite que tomar remédio todos os dias faz mal. “A PrEP é segura, tem efeitos colaterais raros e acompanhamento regular. O risco é muito menor do que o de contrair HIV”, rebate Russo. Inclusive, uma das modalidades do medicamento é de uso diário.  

 

Sobre possíveis julgamentos sociais em relação ao uso do medicamento, ele é categórico: “Esse estigma pode até existir, mas diminuiu muito. Usar PrEP hoje é um cuidado de saúde, como vacinar ou usar cinto de segurança”. 

 

Embora o dado de aumento de 4,5% nos novos casos não seja o mais atual, ele ajuda a ilustrar uma tendência preocupante: a de que a prevenção não pode sair do centro do debate, especialmente entre populações jovens. 

 

“Existe uma percepção equivocada de que o HIV deixou de ser um problema. Isso é perigoso. Temos ferramentas eficazes e modernas, mas elas só funcionam se forem usadas”, afirma Russo. 

 

Para o infectologista, quebrar tabus e ampliar o acesso à informação são passos essenciais para reduzir novas infecções. “Quanto mais natural for falar sobre prevenção, mais pessoas se sentirão seguras para buscar orientação e proteção”. 

 

Serviço

O Ministério da Saúde mantém em seu site o serviço “Onde encontrar a PrEP”, com endereços de locais de atendimento e distribuição do medicamento em todo o Brasil. Mas vale reforçar que, embora seja acessível pelo SUS, a PrEP não é um medicamento de livre retirada, é preciso realizar consulta com profissional de saúde para indicação ao uso. Acesse: https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/prevencao-combinada/prep-profilaxia-pre-exposicao/onde-encontrar-a-prep.

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